As viagens de autocarro entre a minha
cidade natal e a cidade que me
acolheu durante sete anos produziu em mim uma mudança; Ao adormecer com o
movimento incessante e o som de motor como ruído de fundo, a música que
ouvia para ocultar as conversas de circunstância dos outros passageiros
tomou-me de assalto. Dei por ela, estava eu agarrado a uma sonoridade
calma e introspetiva, onde, se ouvida de outra forma, teria sido por
mim desprezada. Tudo começou com a necessidade da musica ser calma e
sem solavancos (já chegavam os do autocarro) dirigindo-me assim por
estilos musicais tais como a pop (sempre por mim odiada até então), o
folk, alguma soul e muito jazz. A porta que se abriu sobre o jazz fez-me
descobrir vários artistas e géneros e fez-me re-sentir um prazer enorme
sobre o acto de exploração e descoberta da música, como há uns anos que
não sentia.
Trata-se de um género musical que se sente ser muito afectado
pelas décadas a que conseguiu sobreviver. Não que não se sinta isso em
outros estilos musicais; o Metal mudou muito entre os 80s, 90s e 00s,
assim como o rock, a música eletrónica e até a musica do mundo. O jazz
dos 60s é diferente dos 70s no sentido em que se viu invadido por várias
influências de outros estilos musicais que então surgiram. O mesmo
aconteceu nos anos 80s e a partir dos 90s e 00s, após influencias de
rock entre outros, o jazz tornou-se mais aberto e eclético, talvez tenha
encontrado uma outra auto-definição própria.Assim a história começa com os nomes mais clássicos e fortes do estilo, falamos aqui dos anos 30 e 40, estilos como o bebop. Os nomes que descobri/redescobri foram Duke Ellington, Charlie Parker, ou Dizzy Gillespie no cool jazz foram Miles Davis, Dave Brubeck, Bill Evans ou Thelonious Monk; sendo que o smooth passou-me completamente ao lado, parecendo-me que se trata mais de música com voz (coisa que não aprecio muito no jazz) e que teve radio hits na altura. Outras formas mais alternativas que me impressionaram como o free jazz com nomes como Coltrane (é verdade), Albert Ayler ou Cecil Taylor. o avant-garde com nomes como Ornette Coleman, Max Roach ou Sonny Rollins.
O interesse e descoberta começou por volta do ano 2007 e desde então vou sempre procurar o que se passa neste universo.
Tenho
de agradecer aos grandes e antigos nomes deste género, mas também devo
dizer que me agradou imenso descobrir grupos recentes, dos anos 2000 até
aos nossos dias, que produzem uma música bem diferente do que se fazia
em 1960 e que me marcou imenso. Menção honrosa para os Portico Quartet
(que não vi ao vivo no CCB porque não encontrei o bilhete) e para o
grande Esbjörn Svensson Trio e o seu hipnotizante "Leucocyte".
Tudo
isto me traz recordações marcantes dos meus 7 anos em Lisboa. Desde as
viagens até ao bairro alto, ao alto de Pina e à praça do Chile, passando
pela travessa do Possolo e indo até ao Oriente; do cais-do-sodré até Belém, da marginal de mota até Pinhal Novo de muletas; de Sintra
medieval até ao guincho.
Lisboa foi tão bom!
A.